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Enfarpeladasocumveu

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Aprendizagem a (em) cru IV

Kempermann e col., em 1997, descobriram que sempre que animais adultos se encontravam em contextos estimulantes, se formavam novas células nervosas no hipocampo. E, Eriksson e col., em 1998, demonstraram que, também no ser humano se formavam novas células nervosas. esta descoberta foi corroborada por Gold (1999) e Unger e Spitzer (2000).

No entanto, em 2001Pasko Rakic da Universidade de Yale afirmou em artigo publicado na revista Science que a neurogénese é impossível em  humanos adultos, não ocorrendo sequer no cérebro de primatas (RAKIC, 1985). Desde então a estabilidade do número de neurónios é usada para explicar o processo de aprendizagem contínua e a memória (RAKIC, 1985), além de justificar a inevitável degradação das funções nervosas com o avanço da idade, a qual seria causada pela morte dos neurónios.

Porém, esta teoria não é defendida por todos. Um grupo de pesquisadores liderados por Elizabeth Gould usou técnicas mais recentes e mostrou que o nascimento de novas células nervosas era sim possível em primatas adultos (GOULD et al, 1998 GOULD et al, 1999). O mais importante é que os novos neurónios foram encontrados em locais supostamente responsáveis por funções complexas, como a memória, a tomada de decisões e o reconhecimento de formas.Os estudos de GOULD foram revolucionários, nomeadamente porque se referem à área mais complexa do ser humano: o córtex cerebral.

Contudo, em estudos mais recentes David Kornack e Pasko de Rakic  usando os mesmos métodos de análise que a equipa de Elizabeth, encontraram novos neurónios somente no bulbo olfativo, responsável pelo olfato, e no hipocampo, responsável pela memória a curto prazo, sem contudo verificarem a neurogénese no neocortex, afirmando que as células novas, ali encontradas, não eram neurónios (KORNACK & RAKIC, 2001).

Os resultados controversos destes estudos ainda estão longe de terminar uma vez que o assunto é polémico dado que algumas dúvidas se levantam, nomeadamente no que respeita à antiga crença baseada no paradigma tipicamente cartesiano, amplamente ultrapassado, cuja  questão era: se a memória é permanente e o córtex é responsável por ela, então o córtex deveria ser fisicamente imutável. 

No entanto o que parece mais verosímil é que nascem novas células que participam de funções cerebrais importantes e a sua perda e o seu nascimento parecem estar relacionados com os desafios cognitivos (KEMPERMANN et al, 1997; SHORS et al, 2001; GOULD et al, 2000). Assim, não podemos ser deterministas, nem rotular pessoas por sua maior ou menor capacidade para determinada tarefa, tal como não podemos desprezar os idosos, como se estivessem fadados a uma inevitável e irreversível perda das funções nervosas.

O que parece mais provável, até pela experiência relativamente a outras situações (sabemos que a ginástica desenvolve e aumenta os músculos) todos se podem desenvolver se estimulados adequadamente! E, mais do que nunca se afirma que somos produto da nossa interacção com o meio, que o nosso desenvolvimento depende tanto das oportunidades que nos são dadas quanto da nossa maneira de encarar estas oportunidades, em qualquer tempo e em qualquer idade. De acordo com os estudos referidos, tudo leva a crer que o hipocampo cresce em consequência da experiência e funciona tanto melhor quanto maior for a sua estimulação.


Ora, não podemos esquecer que, a cada fracção de segundo, o mundo nos oferece milhões de desafios e que a escolha é nossa: se usaremos as nossas cabeças analisando criticamente o meio (e possivelmente ter mais neurónios) ou se ligamos a televisão para "relaxar".

A partir deste exposição, podemos então referir-nos ao hipocampo como um "detector de novidades" uma vez que ele entra em acção sempre que aprendemos algo de novo. No fundo ele, porque armazenou muitos conhecimentos, em face das novidades, pode ajuizar se lhe são ou não familiares e, se algo jé é conhecido, não precisa de se preocupar com isso mas, se alguma coisa é desconhecida, então o hipocampo precisa de a avaliar e, para tal, apoia-se nas estruturas adicionais do cérebro implicadas nesta função.

Sempre que o hipocampo avalia uma coisa nova como interessante, armazena-a, isto é, constrói uma nova representação. É com base neste conhecimento que se defende a necessidade de que haja coisas novas e interessantes  para que as nossas estruturas internas de aprendizagem as recepcionem e as apreendam rapidamente.

Concluindo: o hipocampo é importantíssimo para que as aprendizagens aconteçam e, sem ele, o Homem não pode viver. No entanto, há aprendizagens que se podem realizar sem o hipocampo uma vez que há aprendizagens para além do conhecimento de pormenores isolados e, como sabemos, aprendemos muito melhor histórias associadas a factos do que apenas os factos isolados que não apresentam nenhuma relação entre si. Estes factos isolados apenas farão sentido se e quando relacionados para que se tornem interessantes, critério fundamental para que os "guardemos" na memória e se registem como aprendizagem.

(...)

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